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• Inflação,
mais que um choque de commodities
• COM AGRÍCOLAS, INFLAÇÃO
PELO IGP-10 ACELERA A 2% EM JULHO
• Aumento para servidores
custará R$ 32 bi até 2012
Inflação,
mais que um choque de commodities
Gazeta Mercantil, 16.07.2008
16 de Julho de 2008 - Em meio a um cenário global ainda
muito complicado, no qual as condições de crédito
voltam a se deteriorar e os esforços empreendidos pelas
autoridades parecem insuficientes para evitar que a crise
retorne a patamares muito preocupantes, outro tema ocupa simultaneamente
o centro de debate econômico internacional: a inflação.
Um estudo recentemente divulgado pelo banco Morgan Stanley
mostrou números que podem ser considerados até
surpreendentes: nada menos do que 42% da população
mundial - notadamente concentrada em países emergentes
- conviveu, durante os últimos 12 meses, com taxas
de inflação de dois dígitos. E podia
ser ainda mais gente, pois a China, onde vivem outros 25%,
mesmo com ações intervencionistas em vários
produtos, tem índices inflacionários ao consumidor
que não chegam a 10%, mas estão perto.
Se os primeiros anos do século XXI - em especial a
partir de 2003 - vinham sendo considerados um período
"dourado" da economia mundial, em razão da
rara combinação de taxas de crescimento maiores
do que as registradas na média histórica, com
inflação abaixo, é forçoso reconhecer
que a mudança das condições pode ser
mais profunda do que vinha sendo esperado pelos mais otimistas.
Mas, afinal, de onde veio tanta inflação? Por
que o dragão, que estava adormecido e por muitos era
dado como morto, resolveu voltar a ocupar alguns de nossos
pesadelos?
O diagnóstico mais freqüente é que se trata
de um choque derivado da alta das commodities no mercado internacional.
O que, de fato, está correto e explica parte do problema.
A propósito, a própria concentração
das altas taxas de inflação em países
emergentes - cuja cesta mediana de consumo é mais intensa
em produtos alimentícios e energia - reforça
essa análise.
Mas há outros componentes, que muitas vezes ficam obscurecidos
pelo choque de commodities, mas que foram muito relevantes
na formação dessa inflação e,
o que é mais importante, terão de ser combatidos
para sua eliminação. Entre eles, o principal,
a manutenção de uma política monetária
de caráter (muito) expansionista em praticamente todo
o mundo.
Nem é necessário entrar em detalhes sobre o
caso americano, onde o agressivo processo de redução
dos juros empreendido pelo Federal Reserve Board (Fed) desde
o final do ano passado teve como finalidade explícita
o combate à deterioração do cenário
de crédito. Mas o fato é que a política
é expansionista, a inflação cheia acumula,
nos últimos doze meses, mais de 4% (contra juros nominais
de apenas 2%) e o mercado já começa a considerar
o risco de que o Fed, mesmo não querendo, seja obrigado
a subir os juros ainda em 2008.
Nos emergentes também se notam claras evidências
de políticas monetárias expansionistas. De forma
geral, é possível afirmar que houve, em praticamente
todo o mundo, um bom grau de leniência frente aos primeiros
sinais de deterioração do quadro inflacionário.
Nas mensagens de vários bancos centrais era freqüente
o diagnóstico de que o choque exógeno não
deveria ser combatido na sua totalidade e que a tendência
de desaceleração global se ocuparia de parte
do trabalho da política monetária.
O que se viu, no entanto, foi uma inflação acelerando
muito mais rápida e intensamente, mantendo os juros
reais em patamares muito baixos - ou mesmo negativos - e colocando
os BCs ao redor do mundo numa situação que o
mercado usualmente chama de "atrás da curva".
Na Ásia emergente, por exemplo, em praticamente todos
os países (com exceção apenas da Coréia
do Sul) a taxa real de juros nos últimos 12 meses foi
negativa em dois ou mais pontos percentuais. E para evitar
que o mesmo ocorra nos próximos, os BCs terão
que subir os juros - e muito.
No Brasil, é sabido, a situação é
diferente. O Comitê de Política Monetária
(Copom) acertou o seu diagnóstico e agiu num momento
em que a inflação ainda recém-apresentava
tendência de aceleração. Como conseqüência,
o BC brasileiro ganhou credibilidade e graus de liberdade
importantes em relação à quase totalidade
de seus pares ao redor do mundo.Mas o quadro inflacionário
local também está longe de ser tranqüilo.
Se há poucos meses as projeções para
o IPCA em 2008 estavam rigorosamente sobre a meta definida
pelo CMN, hoje o consenso já aponta para níveis
em torno do teto (6,5%), e não seria nada pessimista
considerar o risco de que esse nível venha mesmo a
ser superado.
Em menor intensidade, a deterioração se estende
a 2009, para quando as projeções já fugiram
da meta central e caminham perigosamente para superar os 5%.
O ciclo de alta dos juros no Brasil irá se prolongar
pelos próximos meses. Mas, em parte, o tamanho do esforço
que será necessário aqui irá depender
do aperto monetário que será promovido no resto
do mundo.
Até o momento, os sinais são de que a "ajuda"
com que o Copom poderá contar de seus pares é
ainda muito pequena. A aceleração da inflação
no mundo tem sido mais intensa do que a força do ajuste
dos juros e, num cenário em que a tendência à
valorização cambial é praticamente generalizada,
a tentação a ser leniente ainda existe - e alimenta
essa inflação, mantendo os BCs "atrás
da curva".
Por ora, portanto, o ritmo de alta mantido pelo Copom, de
0,5 ponto, pode ser mantido. Mas o risco, para esta e para
as próximas reuniões, é de movimentos
maiores - e não menores.
kicker: O esforço monetário aqui irá
depender do aperto dos BCs no resto do mundo (Gazeta Mercantil/Caderno
A - Pág. 3) JOSÉ MAURO DELELLA* - Superintendente
da Análises Econômicas/Área do Mercado
de Capitais do Banco Itaú. Próximo artigo do
autor em 19 de agosto.
COM
AGRÍCOLAS, INFLAÇÃO PELO IGP-10 ACELERA
A 2% EM JULHO
Índice fica
acima das estimativas dos analistas; nos últimos 12
meses, indicador acumula alta de 14,72%
Reuters e Agência Estado
SÃO PAULO - A inflação pelo Índice
Geral de Preços-10 contrariou a previsão do
mercado e voltou a acelerar em julho, em razão de um
novo aumento nos custos dos produtos agrícolas, informou
a Fundação Getúlio Vargas (FGV) nesta
quarta-feira, 16.
O indicador teve alta de 2% neste mês, ante avanço
de 1,96% em junho. O resultado ficou acima das estimativas
das previsões dos analistas do mercado financeiro ouvidos
pela Agência Estado, que esperavam uma taxa entre 1,64%
e 1,95%, e foi superior à da mediana das expectativas
(1,85%.
Entre os componentes, o Índice de Preços por
Atacado (IPA) avançou 2,54%, depois de subir 2,21%
no mês passado. O IPA agrícola saltou 4,66% em
julho, após a alta de 2,62% em junho. Já o IPA
industrial teve ligeira desaceleração do avanço,
para 1,71% neste mês, contra 2,06% no passado.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu
0,65%, abaixo da variação de 0,93% em junho.
O Índice Nacional de Custo da Construção
(INCC) também perdeu força, com elevação
de 1,50%, depois da alta de 2,66% no mês anterior.
O IGP-10 foi calculado com base nos preços coletados
entre os dias 11 de junho e 10 de julho. No ano, o índice
acumula alta de 8,64% e nos últimos 12 meses, de 14,72%.
Aumento
para servidores custará R$ 32 bi até 2012
Reajuste, parcelado e previsto na MP 431,
vai gerar custo adicional ao próximo presidente da
República
Sérgio Gobetti, BRASÍLIA
As concessões feitas pelo governo aos servidores públicos
e incluídas na Medida Provisória 431 - que estava
na pauta da Câmara, mas acabou não sendo votada
pelos deputados - podem gerar gasto adicional de R$ 32 bilhões
para o presidente da República que assumir em 2011.
O impacto foi calculado pelos técnicos do Ministério
do Planejamento e atinge seu pico em 2012, quando está
previsto que entrem em vigor as últimas parcelas dos
reajustes negociados neste ano.
A MP 431 altera o plano de cargos e salários de 800
mil servidores civis e 611 mil militares, incluindo aposentados
e pensionistas. Como os reajustes foram negociados em parcelas,
o impacto em 2008 é de "apenas" R$ 7,7 bilhões.
Em 2009, os acréscimos são de mais R$ 10,7 bilhões,
em 2010, de R$ 7,7 bilhões, e em 2011, de R$ 5,1 bilhões.
Todos os custos são cumulativos e somam R$ 31,9 bilhões
até 2012.
Ou seja, o novo presidente assumirá o mandato com
uma despesa de pessoal de, no mínimo, R$ 158,6 bilhões,
sem contar o custo de concursos públicos e outros reajustes
que venham a ser concedidos nos próximos anos. Além
da MP 431, por exemplo, o Palácio do Planalto confecciona
outra medida provisória beneficiando as carreiras de
status mais alto, como auditores da Receita Federal e técnicos
do chamado "ciclo de gestão", que trabalham
no Planejamento, Tesouro Nacional e Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea).
Segundo negociações, o salário final
dessas carreiras deverá subir de R$ 13 mil para cerca
de R$ 19 mil - acréscimo de quase 50%. O custo dessa
nova MP, porém, deve ser mais baixo porque o número
de beneficiários é menor.
"COMPATÍVEL"
De acordo com a exposição de motivos do presidente
Lula, que acompanha a MP 431, o atual pacote de reajustes
não fere a Lei de Responsabilidade Fiscal porque "é
compatível com o aumento de receita decorrente do crescimento
real previsto na economia brasileira, conforme demonstra a
série histórica concernente à ampliação
da base de arrecadação nos últimos anos".
Trocando em miúdos, o governo planeja usar o excesso
de arrecadação para turbinar o salário
do funcionalismo público.
Segundo o deputado Geraldo Magela (PT-DF), relator da MP
431, a decisão de negociar reajustes com prazo tão
longo de vigência se deve a uma estratégia do
Planalto de tentar abafar reivindicações dos
sindicalistas. "O governo fez uma escala de reajuste
para não ficar enfrentando negociações
salariais todos os anos", disse.
Na prática, entretanto, as concessões podem
ter efeito contrário, atiçando o apetite dos
menos beneficiados. Na negociação da MP 431,
por exemplo, o relator já sinalizou apoio a uma reivindicação
dos professores da ilha de Fernando de Noronha: a equiparação
com os profissionais de ex-territórios, que, pelo projeto
debatido na Câmara, poderão receber o mesmo salário
dos demais professores federais.
"Essa MP é uma grande vitória de todos
os servidores públicos", resumiu Magela, falando
no plenário a uma platéia de funcionários
públicos.
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