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Bares
têm queda de 20% no faturamento
Maristela Orlowski

Percival Maricato: a nova lei é
"demagógica, anti-social, excessivamente draconiana
e inconstitucional". |
Descontentamento geral para donos de bares e restaurantes
na cidade de São Paulo. A nova lei 11.705 – que
pune mais severamente os motoristas que dirigem sob influência
de qualquer quantidade de álcool – já
surte efeito também no bolso dos empresários.
A queda no faturamento chega a 20% em dez dias, segundo estimativa
da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes
(Abrasel), seção São Paulo.
O Diário do Comércio conversou ontem com Percival
Maricato, diretor-jurídico da entidade. Segundo ele,
bebidas alcoólicas são os itens que mais geram
lucro aos estabelecimentos. Elas são responsáveis
por 60% e 30% do faturamento de bares e restaurantes, respectivamente.
“À medida que a lei vai sendo divulgada, o prejuízo
aumenta. Mas, muito além da queda na receita, a nova
lei pode deflagrar a perda de empregos e a falência
de empresários”, ressaltou o executivo, que defende
a adoção do mesmo limite de álcool permitido
em países como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá,
de 8 decigramas de álcool por litro de sangue.
Diário do Comércio - Qual sua opinião
a respeito da nova Lei Seca?
Percival Maricato - É demagógica, anti-social,
excessivamente draconiana e inconstitucional. Nós vamos
enfrentá-la e mudá-la, como fizemos com a Medida
Provisória 415, que proibia a venda de bebidas alcoólicas
em estabelecimentos localizados em rodovias federais. Do país
mais tolerante, passamos, repentinamente, ao mais intolerante.
As autoridades brasileiras costumam ser omissas com problemas
sociais e, quando resolvem intervir, o fazem sempre desequilibradamente.
DC – Como fica o setor de bares e restaurantes?
Maricato – É uma hecatombe, uma situação
trágica. Temos cerca de 50 mil estabelecimentos na
cidade de São Paulo, 100 mil pequenos empresários
e 300 mil funcionários. Todos estão arriscados
a perder seus negócios e empregos. Somam-se, ainda,
distribuidores, adegas, fabricantes. Todos os negócios
podem ser levados à falência. Cerca de 10% da
população ativa do País pode ser atingida
por essa nova lei.
DC – Já há estimativa de prejuízos?
Maricato – Todos os estabelecimentos já devem
ter sido atingidos. A população está
lendo nos jornais que tomar um chope pode dar cadeia ou, no
mínimo, resultar em drásticas punições
administrativas. É evidente que evitará o consumo.
É um estado de terror. Estamos apurando o prejuízo
com exatidão, mas, até agora, os menos prejudicados
devem ter perdido 20% de receita. À medida que as punições
e prisões vão sendo anunciadas, esse prejuízo
aumenta. E não pára por aí. Supermercados,
quitandas e padarias também serão atingidos,
pois, da mesma forma, não se poderá mais beber
em churrascos de fim de semana, casamentos, jantares com a
família. No fim das contas, acredito que 95% do mercado
de bebida será atingido.
DC – Que medidas serão tomadas pela
Abrasel?
Maricato – Vamos ajuizar uma ação até
amanhã (hoje). Demonstraremos que a lei é inconstitucional
por vários motivos: fere os princípios da razoabilidade
quando diz que qualquer quantidade de álcool é
infração; prevê punições
desproporcionais às infrações; e é
iníqua e ilegal quando sustenta que quem não
se submeter a testes como o do bafômetro será
punido como se estivesse alcoolizado. A lei também
atinge a livre iniciativa, a liberdade econômica, o
direito de ir e vir. Vamos mobilizar o setor, fazer avaliações,
obter números e informações e agir no
plano político, abordando parlamentares para mudar
a lei. Divulgaremos nossas razões à opinião
pública e entraremos com ações judiciais.
O setor deixou de ser passivo, criou lideranças. Está
preparado para lutar.
DC – E quanto ao senhor?
Maricato – Eu considero essa exigência não
só ilegal, como abusiva e uma invasão de privacidade.
Entrei com mandado de segurança para poder circular
na cidade sem ser molestado.
DC – Qual a atitude das pessoas nos bares e
restaurantes?
Maricato – Muitas não bebem, outras pedem chá
ou água, algumas pedem cerveja sem álcool. Estamos
brincando de escoteiros e seminaristas nos bares. Estes, pelo
menos, podem tomar um pouco de vinho nas missas. Mas, se a
lei for aplicada, o padre que tomar vinho nas cerimônias
também poderá acabar sendo preso na esquina.
DC - A lei vai pegar?
Maricato – Não passará. Faremos um movimento
mais forte do que o que fizemos para enterrar a MP 415. Do
lado do consumidor, é evidente que 80 milhões
ou 90 milhões de brasileiros também não
mudarão seus hábitos, não deixarão
de lado seu direito ao lazer apenas porque o governo emitiu
um decreto ou uma lei.
DC - Por que não daria certo no Brasil, assim
como deu em países europeus?
Maricato – Na Europa, as pessoas têm uma cultura
de sair mais cedo. Seria bom para nós que os brasileiros
fizessem isso, mas eles gostam de sair mais tarde. Por outro
lado, na Europa, você pode circular na rua sem correr
risco de ser assaltado em cada esquina e existem transportes
públicos durante a noite. Aliás, em muitos países,
a lei é mais liberal que a nossa.
DC – Existe certo preconceito contra bares
ou mesmo bebida no País?
Maricato – Existe, sim, um visível preconceito
da sociedade, das autoridades e da mídia contra bares
em geral e bebida em especial. São locais de lazer,
descontração, divertimento, namoro, acesso democrático
de jovens, e não merecem essa carga negativa. Aliás,
bebida alcoólica é algo que faz parte da civilização
há mais de dez mil anos. Na Antiguidade era tão
cultuada que tinha até entidade divina – como
Baco, o deus do vinho –, respeitada tanto como a fertilidade,
o fogo e outras necessidades do homem. É preciso acabar
com tanto preconceito.
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